O que é ser mulher?

Vi uma discussão acerca e resolvi escrever sobre o que é ser mulher.

Antes de discutir o mundo atual, devemos lembrar a história e circunscrever em que espaço significa este termo. Primeiramente, a palavra “mulher” pertence ao nosso vocabulário – não se pode ter certeza de que o termo “mulher” era usado com a mesma acepção e cargas há 2000 anos, por exemplo. Não posso responder se todas as linguagens do mundo compreendem o termo da mesma forma que nós no Brasil.

Logo, o conceito de “mulher” depende da existência de uma linguagem que reconheça este termo, dentro dos seres humanos – pois é uma palavra com carga moral, histórica e apenas reconhecemos a história humana, pelo menos hoje – e dentro, claro, do nosso planeta.

Enquanto a nós “mulher” parece um termo universal, tal universalidade já é restrita por diversas barreiras de compreensão, existência ou até legitimidade (linguagem, seres humanos, questionamento constante dentro da nossa sociedade efêmera).

Falando-se no universo, este desconhecido, é claro que não há certeza absoluta de que o termo é reconhecido fora daqui. Trata-se apenas de nosso planeta.

Aqui há sociedades que reconhecem não apenas homem e mulher, mas outros gêneros que são definíveis como homem/mulher ou não, como burrneshas, fa’afafines, hijras, kathoeys, khaniths, khawaja saras, ninauposkitzipxpes, palao’anas, two-spirits, travestis e certamente muitos outros.

São citadas todas estas sociedades porque devemos lembrar que nossa realidade, como um todo, já não é binária – a não ser que desrespeitemos todas as outras sociedades. Na cultura ocidental é que temos em geral apenas “mulher” e “homem”.

Progredindo, podemos andar para o nosso país, o Brasil. Aqui, inclusive, existe a categoria “travestis” em que algumas pessoas tratam-se no masculino e outras não. Cabe à própria comunidade buscar consenso político e fazer alterar-se o dicionário (que hoje admite ambos usos, mas cada vez mais a sociedade ressona o gênero feminino) porque o português é uma língua baseada em gênero. Lembrando: só porque o dicionário permite não significa que você deva desrespeitar a identidade de gênero alheia. Caso não saiba, pergunte e/ou utilize linguagem neutra.

Sobre a estrutura: esta hoje é machista, favorecendo o homem em detrimento da mulher. Determina que homens recebem salários maiores para as mesmas funções, não favorecem a saúde da mulher (violência obstétrica, aborto legal negado pelo Estado, ameaças ao controle do corpo da mulher como Estatuto do Nascituro são alguns exemplos), afasta a mulher de profissões “tipicamente masculinas” como a engenharia e a tecnologia da informação e dá uma criação mais “recatada”, “feminina”, terroriza frequentemente a mulher que anda na rua ou frequenta baladas, faz com que homens se sintam à vontade para usar seus corpos, seja vendo, tocando ou violando-os, com que mulheres tenham medo ao andar nas ruas.

Sobre os homens: alguns alegam ser uma violência ter servidão obrigatória. E espero que eles unam-se para resolver suas causas e não subjuguem a mulher dizendo que ela deveria servir obrigatoriamente também, afinal, a luta protagonizada pelas mulheres não precisa lutar pelo que não quer. Também espero que não reclamem de coisas como pensão alimentícia, direito ou não a aborto – afinal, não engravidam e/ou não são vistos como primeiro recurso para crianças – ou da licença-maternidade – e sim que expandam a licença-paternidade.

A sociedade prega um papel fundamental na diferenciação entre o que é ser homem e o que é ser mulher: ela expõe as pessoas às violências que sofrerão no decorrer de suas vidas. As experiências individuais certamente não são iguais, mas as mulheres não estão livres das violências ou do risco das mesmas inerente ao gênero.

Leia-se: o gênero tem a carga da violência, como lembrado por feministas radicais por lembrarem de estrutura, e como lembrado por transfeministas pois, por exemplo, um pênis só pode ser opressor quando portado por um homem. Idealmente, o gênero deve ser ressignificado para que não represente mais violência ou fonte de preocupações e sim forma de celebração.

Dentro do próprio ser, não há imanência de gênero: ninguém sente-se ontologicamente mulher ou homem. Enquanto considerando a mulher ou o homem biológico haja diferenças de modo geral (mas não absoluto, pois há pessoas de tipagem cromossômica diferente de XX ou XY, pessoas de cromossomos XX sem úteros, vaginas, ovários, pessoas de cromossomos XY sem pênis, pessoas de cromossomos XY ou XO com fenotipia feminina incluindo útero, vagina e ovários, pessoas de cromossomos XX com fenotipia masculina incluindo pênis), não há uma maneira absoluta de se portar mulher ou homem. Então nós, conscientemente, não temos uma diferença pura entre ser homem ou mulher sem considerar a sociedade.

Logo, considerando-se linguagem, local e cultura homogênea à nossa (ocidental), pelo menos, as únicas coisas que fazem a pessoa se sentir mulher ou homem são, perante a estrutura, e pelo menos nos tempos de hoje, as violências sofridas. Após tais estruturas se tornarem inexistentes ou, no mínimo, irrelevantes, é que poderá haver uma nova discussão acerca do que é gênero, pois somente neste momento a sociedade estará pronta para efetivamente discutir a nova forma de se enxergar gênero.

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