Vamos: ouvir

Gosto da ideia do funk. Na verdade, da ideia do efêmero em si: as ideias, os pensamentos, as correntes são coisas perenes que sobrevivem do efêmero (nós: nós somos efêmeros, nós morremos). O que quero dizer é que para uma ideia se afincar na sociedade ela precisa permeá-la de forma natural, ubíqua.

Sim, é uma alfinetada nas formas de manifestação que usamos também: temos cartazes, diversas formas de conhecermos, como povo, o que e como deve ser feito. Sabemos olhando para o panorama o que precisa ser destruído: o machismo, representado pelo patriarcado ou o gênero como superestruturas de opressão.

Toda discussão tem muito a ver com o funk porque a música está presente nos ouvidos das pessoas. Ela é cantada, rima, namora com a linguagem. Se, ainda que em gotas d’água, pétalas feministas pararem nos ouvidos e nas mentes das pessoas, teremos mais uma ferramenta para alterar a nossa realidade. É uma luta que sai do papel e entra na mente e nos ouvidos.

Nós aqui, inclusive eu neste texto, trabalhamos com uma linguagem que não seria sedutora àquela público-alvo. Então eu não sei medir o quão transformador é o funk. Só que pelo quanto está entranhado na sociedade, validado ele está.

Sobre as novinhas, eu acho é pouco: elas têm de participar do funk, sim. E serem igualmente protegidas por nós, nos limites em que a nossa lei estabelece. Não adianta querermos invalidar um gênero musical que as envolva (lembram das novinhas dançando Na boquinha da garrafa, da Carla Perez?), temos é de lembrar de protegê-las. A vida será dura igual a todas nós, novinhas ou não.

Não é possível acharem bonito Lolita por Nabokov ou Crime e Castigo por Dostoevskij e acharem feio a nossa produção, por exemplo. Eu apoio Valesca Popozuda enquanto ela escrever coisas que questionem o modelo “mulher lava-passa-cozinha”, que digam “se o cara é abusado, nós metemos a porrada”, “hoje eu não vou dar, eu vou distribuir”.

Pode ser que nós é que simplesmente não estejamos compreendendo como é que a mensagem é passada. E só isso, nada mais do que isso. E por isso eu não questiono formas de se expressar das pessoas com menos “””instrução”””. Muitas falam a mesma coisa que nós, só de outra forma que é a que elas entendem ser certa. Reclamam igual de homem, de falta de sororidade, de chefe abusivo, são iguais a nós. Iguais.

Aí por isso tenho interesse em outros meios. Gosto de ouvir músicas que o pessoal mais novo está ouvindo (5th Harmony, Ashley Tisdale, One Direction, Selena Gomez, etc). Já ouvi bastante Blind Guardian, Nightwish, Ramones, Spice Girls, etc. Gosto de entender como as gerações mais novas estão se comportando, até por trabalhar com redes sociais também.

Por isso eu me interesso, muito, em discutir tudo isso. Porque eu acho lindas todas as formas com que a sociedade consegue andar em paralelo. E muitas delas a gente desconhece, pois não vivemos todas as realidades. Portanto, como boas pessoas de fora, devemos: ouvir.

<3

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